Três de Julho de 2000



O sol passava por entre a cortina que comprara naquele verão que passei com Tia Louren. Não passa das duas da tarde. Faz frio, é julho. Estou sentada de frente para a janela na poltrona que outrora era sua favorita. Miguel está dormindo, depois se amamentar em meu colo. Se está confuso com o nome lhe digo que "sim, coloquei o mesmo que o seu". Achei que era mais do que digno e me faz bem saber que ao menos no nome ele será como você ... foi.

Confesso que mesmo depois de quase um ano ainda é difícil pra mim pensar que não vai voltar hoje a noite, semana que vem ou ainda, mês que vem. Ainda me dói pensar que não nos veremos mais, e que não sentirei mais o calor do seu abraço. Prometi pra mim mesma que não ia chorar, ao menos hoje não. Ontem, no jantar, Miguel ficou brincando com uma foto sua. Tenho certeza que você babaria nele, tão lindo. Tem seus olhos, sabia?

Sei que neste tempo todo não cheguei a fazer isto que estou fazendo agora. Papel e caneta na mão, escrevendo-lhe. Peço que me perdoe, mas até hoje não havia de ter coragem o suficiente para cair em si e saber que não haverá resposta para esta carta. Mas escreverei assim mesmo, contarei cada detalhe inoportuno que senti que devo lhe contar. Sei que em algum lugar você lerá esta carta e sorrira, aquele sorriso lindo que Miguel puxou a você. Com apenas meses já vejo isso.

Não conseguiria, nesta minha primeira carta, lhe agradecer por tudo que fez por nós. Sinto, e deixo uma lágrima cair neste exato momento. Poderia ter outra solução? talvez sim, talvez não... mas te queria aqui com nós. Queria te ver participando de cada detalhe novo que ele aprende sozinho ou com alguém. Lembra quando você me levou ao parque, naquela noite de verão, e me disse que queria viver pra sempre em mim? Penso nisso o tempo todo, você está literalmente dentro de mim. Suas emoções agora são minhas emoções, e sinto que este coração que me deu, é tão seu, e por isso te sinto sempre presente, aqui ao meu lado, dentro de mim. Comigo, sempre. 

Droga!, prometi não chorar, o que estou fazendo? Miguel resmungou e se mexeu no berço. Logo ele abrirá aqueles olhos - seus - verdes e me sorrira. Eu, com todas as lágrimas querendo pular para fora, te sorrirei em retribuição e me lembrarei de você. Mas não chorarei, por que além do destino que nos foi selado, você me deixou dois presentes que, com certeza, são a minha vida. Nosso filho e seu coração.

Da sua - eterna - Ane.


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