Discurso, discurso, discurso.




Fiz o tradicional sinal com as mãos de para com isso. De nada adiantou. Estranho olhar ao redor e ver todos, absolutamente todos os que importavam, bem ali. Segurei firme a mão de Nara. Soltei a taça de espumante lentamente em cima da mesa, uma maneira de ganhar tempo para pensar na maneira certa de começar o que tinha a dizer. Esses momentos são detentores de uma fobia muito parecida com a dos que não sabem nadar e saem para passear de barco. Jamais tremia em situações como esta, eu era juiz, ora, era apenas um pequeno palavrório em agradecimento. A minha palavra constantemente era o meu gesto, dia após dia, caso a caso. Mas neste caso, havia uma nuvem. Por onde começar. Pedi um guardanapo de tecido para Nestor, amigo velho de guerra, que prontamente me cedeu o seu lenço. A ele sobrava gentileza, desde menino. Foi, dentre nós todos, o que mais namorou meninas do colégio vizinho, o Instituto Educacional das Damas Cristãs. Nestor costumava referir-se ao assunto dizendo que “só as freiras escapam de mim – as mais convictas”. Também era bom com o tempo das falas, o infeliz. Enxuguei minha testa e vi, lá no fundo do salão, meu pai. Nem precisei falar seu nome, antes mesmo do jo de João, ele olhou para o meu olhar, entendeu o recado, foi assim a vida inteira: aproximou-se e ficou perto de Nara. Devolvi o lenço, Nestor sorriu. Faltava minha mãe. Aliás, como fazia falta.

Há algo que vocês não sabem. 

Fizeram silêncio, todos. Até a Diva, mãe da Nara. Bom sinal.

Há algo que vocês não sabem e que devo dizer-lhes, apesar de o fato estar consumado, ou seja: Nara e eu oficialmente somos marido e mulher, esperamos este bebê que virá em alguns meses, eis os motivos deste rosto resplandescente ao meu lado, observem.

Riram, todos. Até o Horácio, sujeito bem estranho. Bom sinal.

Há algo que vocês não sabem e jamais existirá outro momento adequado como este para que eu, diante de todos vocês, tantos amigos, familiares, colegas, todos tão importantes para nós dois – tudo bem, Nara, sei que o Nestor é apenas para mim, mas convenhamos, era preciso, somos amigos de infância – aborde o tema em público sem constrangimentos futuros, já que aqui temos um momento de tamanha alegria e nada nos afetará. Tenham calma. Eu apenas brincava quando falei sobre o fato consumado. Sim, está, não me olhe assim, Nara. Mas nada diz respeito ao fato de eu estar casando-me com a mulher que mais amo nesta vida. Tire essa ruga da testa, tia Maria. Há algo que nenhum de vocês sabe, nem você, pai. 

Prenderam a respiração, todos. Até o Nestor, que tinha asma. Bom sinal. 

Tenho aqui uma carta de minha mãe, que guardo com amor desde que ela nos deixou, há tantos anos, vejam o papel, como se esfacela. Bem, tal qual uma profetisa – daí seu nome Débora, estou convicto – parecia saber que este seria o dia mais perfeito para que fosse feita a leitura, pois os nomes citados, minhas senhoras, meus senhores, os nomes citados estão bem aqui ao meu lado.

"Amado filho,
esta não será uma carta fácil. Nem para mim, nem para você. Escrevo pois sinto formigar em mim um pressentimento, tal qual apito de trem que ouve-se ao longe, prenúncio de um fim. Filho, amado, quero que leia esta carta com atenção e no momento em que julgar mais propício. É preciso, entretanto, que não se demore, pois ao contrário de mim, que devo não mais estar entre nós, é preciso que alguns ouçam. Diga-lhes, pois, um a um. Anunciando os nomes e olhando-os nos olhos antes de começar.
Nestor. Tu és filho sem meu sangue, menino. Vejo em vocês uma vida de amizade duradoura, fiel, honesta. Não mintam um ao outro, nunca. É isto que os fará sólidos: a verdade. Não esconda nada do meu filho, mesmo que isso provoque terremotos. Ele agirá da mesma forma e, assim, ele e tu terão um ao outro como hoje os tenho, como os vejo. Irmãos.
Diva. Minha vizinha amada, meu amuleto, a ti confiei minha doença e talvez agora as coisas possam fazer mais sentido, tanto para ti, quanto para os outros. Diga-lhes, Diva, depois disto que aqui se sucede, se tudo der certo e esta carta chegar no tempo certo aos seus ouvidos, diga-lhes que o amor me fez esconder a doença incurável. Mas que poupá-los foi cobrir os seus pés em noites geladas. Zelo. Obrigado pelo segredo guardado, amiga. Não saia de perto do meu filho, nunca, arrume um jeito, amiga, fique perto do meu filho, como quer que seja. Mas não case com meu marido se ficar viúva. Conheço-te bem.
Horácio. Meu grande amigo, meu grande mestre das letras em tempo de colégio, Horácio. Apresentaste Machado de Assis em uma tarde de férias como quem não quer nada, sem saber que aquilo tanto me faria bem para a vida, quanto para a morte. Sábio homem. Horácio, és um dos mais admiráveis amigos, dos mais fiéis, dos mais amáveis. Obrigado por cada ensinamento, cada momento. Vou levá-los comigo, os médicos devem estar certos e não vou poder dividir com meus netos, mas faça-o, então, divida com meus netos, com os filhos do meu filho.
João. Meu marido, meu amor. Estou indo, João, sinto-me saindo de nós. A você, já digo tudo, diariamente, já o tens na mente, no coração: amor como este não haverá, porque igual a ti, nunca houve. Que sua vida seja longa o bastante para que vejas o mundo e sejas felizes, mas não tão longa a ponto de me esqueceres. Assim eu estaria verdadeiramente morta. Caso contrário, não. Viverei em ti.
Filho. Filho, filho, filho meu. Será que conseguiste guardar esta carta como te pedi? Sim, deves ter conseguido. Tua curiosidade jamais foi maior que o teu amor. Nem por mim, nem por nada. É preciso que sejas isso, amor, filho, amado. Mais amoroso que curioso. E se tiveres curiosidade, que seja amor. Mas nunca o contrário. Se estiveres lendo esta carta num momento propício, Nestor, Diva, Horário, teu pai, todos deverão estar ao teu lado. Espero que tenhas crescido bem, estudado bem como estudas hoje, tomara que tenhas feito faculdade, ou não, caso não desejares, que tenhas sido feliz, seja como for, filho, amado, amor.
Esta carta, filho, é para dizer do meu amor por ti. E pela certeza de que, um dia, terás ao teu lado alguém que te ame tanto quanto eu.”



Por Pedrinho Fonseca

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